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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Medicina complementar pode ser boa aliada para a fertilidade...



Existe uma percepção de vários médicos e pesquisadores de que a infertilidade está aumentando. Nas revistas científicas, já foi publicada a defesa dessa ideia por autores como Abel, em 1985, Sinclair, em 1994, e Giwercman, em 1998 por exemplo. Entretanto, cabe observar que os dados epidemiológicos publicados nos últimos anos, sobre infertilidade, são contraditórios. Há os que afirmam que existe o contrário: uma tendência à sua redução e que isso pode ser atribuído aos avanços da medicina.

Discussões à parte, há um dado significativo que merece a nossa observação: considerando os números da OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que atualmente 12% dos casais em idade fértil no mundo não conseguem ter filhos, enquanto que na década de 50 esse número global estava na casa de 4% a 5%. A OMS ainda considera que os outros 10% possuem “dificuldade de concepção”: casos onde a reprodução é demorada, havendo evidências de pouca fertilidade ou ela foi assistida por técnicas da medicina.

Eu estou entre os médicos que acreditam que há uma elevação significativa nos casos de infertilidade nos últimos 50 anos. Outro ponto interessante é que entre os tipos de infertilidade a que mais cresceu foi a dos casos chamados de idiopáticos, ou seja, aqueles onde não se identifica o motivo para a dificuldade de engravidar. Hoje em dia, cerca de um quinto dos casos é do tipo idiopático, onde não é possível identificar a causa de infertilidade.

Essas causas podem ser do homem. Cerca de um terço dos casos ocorrem porque o esperma masculino está com problemas e, com isso, há poucos espermatozóides viáveis. Já as causas orgânicas de infertilidade feminina são muitas e correspondem a 40% dos casos. Nos 10% restantes, tanto homens como mulheres concorrem, ao mesmo tempo, para o problema.

Infertilidade orgânica

Entre as causas de infertilidade chamadas de orgânicas (onde há um problema que pode ser identificado e diagnosticado) na mulher, as mais comuns são a endometriose, a doença inflamatória pélvica, ovário policístico e as alterações do corpo uterino.

Na endometriose, o endométrio, tecido que recobre a parte interna do útero, se desprende migrando para outros locais, em geral ovário e trompas, onde atrapalha o seu funcionamento. Com isso, a ovulação ou a nidação do embrião são afetadas, gerando esterilidade.

Ovários policísticos é um problema onde os folículos ovarianos não conseguem se desenvolver normalmente e acontece um desvio do metabolismo. O ovário fica cheio de pequenos cistos, que não conseguem evoluir e produzir um óvulo, e há uma produção excessiva de testosterona, um hormônio masculino. Com isso a mulher não ovula normalmente, nem menstrua, além de poder apresentar também um problema chamado de síndrome metabólica, onde o colesterol sobe e há resistência à insulina. Há também aumento de peso e aparecimento de pelos anormais. As causas desse problema ainda não estão totalmente esclarecidas.

A doença inflamatória pélvica é uma infecção do aparelho reprodutor feminino e pode ser provocada por vários micro-organismos, mas o que é mais comum se chama clamídia. Ele costuma afetar as trompas, o que causa obstruções e deformações. Com isso, o óvulo não chega ao útero e nem pode ser fecundado. As mulheres que têm uma causa orgânica de infertilidade identificada, em geral, ficam mais tranquilas, devido à possibilidade de vislumbrar um tratamento.

A grande angústia acontece quando nenhuma causa pode ser identificada pelos exames, e os casais ficam perdidos, sem saber a razão de não conseguirem reproduzir. Por isso, é nesse ponto que vou concentrar mais a minha atenção neste texto. Existe muita controvérsia quanto à origem do aumento da infertilidade idiopática. Os fatos que vou relatar não são consenso na literatura médica, mas, na minha opinião, são procedentes e merecem ser mais investigados.

Possíveis causas da infertilidade idiopática (sem o motivo identificado):

Primeira - Anticoncepcionais

Um problema vem do uso excessivo de anticoncepcionais por adolescentes e adultas jovens. As jovens usam os medicamentos à base de hormônios sintéticos para evitar filhos, e esses medicamentos inibem a função da hipófise. Com isso, a hipófise deixa de comandar o ovário, não se formam folículos, óvulos, nem o corpo lúteo. Os ciclos menstruais são resultantes dos efeitos dos hormônios existentes nos anticoncepcionais. 

Muitos médicos deixaram de fazer uma interrupção anual nos anticoncepcionais, para deixar a hipófise reassumir o controle do ovário. As jovens passam anos usando anticoncepcional, o que pode afetar a capacidade da hipófise de regular o ovário. Às vezes, a hipófise não consegue mais reassumir um controle perfeito do ovário em mulheres mais sensíveis, quando as mesmas param de usar os hormônios. Algumas mulheres nem menstruam, outras menstruam, mas o ciclo é irregular, e elas não ovulam normalmente. Por isso, um percentual de mulheres que usam anticoncepcionais por muitos anos ficam com dificuldade de engravidar.

Segunda - Poluição ambiental

Uma segunda causa apontada, em especial por ambientalistas, tem sido a poluição ambiental. Muitas substâncias químicas usadas na indústria, pecuária e agricultura, e que chegam ao meio ambiente, possuem um efeito chamado de “desruptor endócrino”. Isso significa que essas substâncias interferem na função dos hormônios, causando uma quebra da comunicação entre a hipófise e as glândulas. Uma boa parte das substâncias que causa esse problema atua no eixo dos hormônios sexuais e, por isso, tem sido relacionada com a infertilidade em várias espécies animais assim como em humanos.

Isso, por exemplo, já foi comprovado para um defensivo agrícola chamado Chlordane, que além de potencializar o efeito tóxico de dezenas de substâncias, modifica a capacidade do fígado de metabolizar o estrogênio natural, gerando infertilidade. Um estudo feito na USP (Universidade de  São Paulo) demonstrou que as taxas de fertilidade são menores em populações que vivem em locais com maior poluição atmosférica. 

Há ainda as conclusões preocupantes de um estudo realizado na Universidade de Granada, que avaliou a placenta de 308 partos realizados entre 2002 e 2004. Nesse estudo 100% das placentas estavam contaminadas por uma ou mais das substâncias testadas, todas poluentes com potencial de afetar a reprodução. Isso mostra que esses poluentes têm capacidade de atingir o embrião, corroborando mais ainda essa hipótese.

Terceira - Estresse continuado

Por fim, a terceira causa para infertilidade idiopática apontada por alguns especialistas é o estresse continuado. O estresse pode interferir com a função da hipófise e desregulando os hormônios FSH e LH, que controlam o ovário, e ainda causa elevação da prolactina - um conhecido inibidor da ovulação. Populações humanas submetidas a altos índices de estresse, como numa guerra, têm uma redução significativa da fertilidade. As populações das cidades grandes estão cada vez mais estressadas e pode ser essa uma das causas da redução de fertilidade.

Afinal, como melhorar a fertilidade por meio da medicina complementar?

A medicina complementar oferece algumas armas para melhorar a fertilidade e pode ajudar, em especial, nos casos de infertilidade idiopática (sem o motivo identificado). Um recurso importante são as vitaminas e minerais, que, se não tiverem em quantidades suficientes, podem atrapalhar as funções do ovário ou a nidação do óvulo.

A medicina complementar tem alguns recursos que podem ajudar no tratamento de infertilidade. Um é a acupuntura. Vários estudos científicos demonstraram que a acupuntura melhora a fertilidade feminina, inclusive nas que foram submetidas à fertilização “in vitro”. Por isso, muitas clínicas de fertilidade estão indicando acupuntura para suas pacientes. Algumas vitaminas e nutrientes também podem ajudar na fertilidade. A suplementação de ácido fólico, por exemplo, é considerada fundamental na gestação, pois a deficiência dessa vitamina é uma causa de infertilidade.

No caso de suspeita de existirem “desruptores endócrinos” afetando negativamente a fertilidade, existe a possibilidade de se empregar alguns ativos naturais com efeito quelante, que significa a capacidade de eliminar substâncias tóxicas do organismo. A vitamina C tem esse efeito. Uma substância retirada de frutas cítricas, chamada de pectina cítrica modificada, tem mostrado essa capacidade, em pesquisas recentes. Em pessoas cuja suspeita recaia no estresse continuado, técnicas como a meditação, relaxamento, massagem e mesmo hipnose podem ser tentadas.


domingo, 10 de julho de 2011

O que é Medicina Integrativa?



Estudos recentes reportam que entre 40-42% da população norte-americana tem feito uso de procedimentos alternativos e complementares em Medicina. Secundário a esses dados, o sistema médico convencional americano constatou que deve direcionar esforços para entender o que está acontecendo e também entender mais a respeito dessa chamada “Medicina Complementar e Alternativa” em termos de educação, pesquisas, segurança e regulamentação.
Mas por quê isto está acontecendo? Qual o motivo destes pacientes procurarem formas alternativas de medicina? Será que é pelo motivo de preferirem fitoterapia e acupuntura aos tradicionais fármacos? Será que estão frustrados com o sistema de saúde? Um estudo do Journal of the American Medical Association (JAMA) revelou que a maioria dos pacientes que escolhem estas alternativas, o fazem pois estas terapias estão mais “alinhadas” aos seus princípios, crenças e orientações filosóficas em busca de saúde e bem-estar.
O sistema convencional de saúde americano começou então a se perguntar quais os métodos alternativos seriam apropriados para o atual modelo. Mas, será esta a questão correta de ser perguntada? Usando a perspectiva do sistema convencional, seria bem provável que modalidades alternativas fossem avaliadas, subtraídas, modificadas e reinseridas e, ao fazer tudo isso, o verdadeiro valor dessas modalidades estaria perdido. O desafio em questão é:  Criar um modelo de saúde ao invés de doença; um modelo onde os praticantes tenham tempo para ouvir seus pacientes; valorizar os aspectos nutricionais e mudanças no estilo de vida na saúde e na doença; oferecer tratamentos em adição a fármacos e cirurgias; entender o potencial de auto-cura e de “healing” que é inato do organismo humano. Este princípio parte da premissa de que a prevenção é uma das primeiras responsabilidades dos provedores da saúde e que, sempre que possível, tratamentos seguros, simples e de bom custo-benefício, e não apenas os complexos, caros e invasivos, devem ser oferecidos aos seus pacientes. 
A prática da Medicina que reafirma o conceito da boa relação entre o praticante e o paciente vem sendo chamada Medicina Integrativa. Seu foco está no indivíduo como um todo e não apenas na doença, é baseada em evidências, faz uso de todo o arsenal terapêutico apropriado e multi-profissionais de saúde para alcançar os melhores resultados nesta relação. Ela combina o que há de melhor, estado-de-arte, da medicina convencional com terapias complementares cuidadosamente avaliadas e baseadas em evidência. 
O conceito do tratamento se baseia na definição do “continuum”. De um lado temos a medicina preventiva, métodos diagnósticos, cirurgias e farmacoterapia. Estes serviços, então, extendem-se a terapias físicas, nutricionais, movimento e exercício, psicologia e a terapias complementares tais como acupuntura, fitoterapia e suplementos, terapias de redução de estresse e intervenções mente-corpo.  
É aqui que surge o paradigma da Medicina Integrativa pois, ela é confundida como “Medicina Complementar” ou “Medicina Alternativa”, senso latum. Ela é muito mais pois, como dito acima, ela se utiliza de todos os bons recursos da Medicina Convencional associados a métodos terapêuticos complementares apropriados em benefício da saúde e do bem-estar do indivíduo incluindo aqui os apectos psicossociais e até mesmo a dimensão espiritual que pode ser relevante na vida daquele indivíduo. Ela leva pacientes e provedores de saúde a uma relação de parceria com objetivo de atingir um estado de equilíbrio.
Terapias complementares estão, cada vez mais, sendo incluídas nos tratamentos de doenças cardíacas, câncer e outras patologias graves e crônicas. Pesquisas e dados baseados em evidência estão em crescente nesta área dando o suporte necessário. Técnicas baseadas em tradições milenares incluindo acupuntura, yoga e meditação podem reduzir o estresse e ansiedade, produzindo impacto psico e fisiológico e melhorando qualidade de vida e dados clínicos destes pacientes.
O primeiro estudo reconhecido na uso da “Medicina Alternativa” nos Estados Unidos demonstrou que em 1990, aproximadamente 1/3 dos adultos norte-americanos usavam tratamentos chamados não-convencionais e que o grupo que mais fazia esse uso era o dos brancos, com ensino e renda elevados, entre os 25 e 49 anos de idade. Os gastos contabilizados apenas com os praticantes era de aproximadamente 11,7 bilhão de dólares, correspondendo a um terço do que era pago por seguradoras de saúde públicas ou privadas. Não apenas o número de visitas aos praticantes desta área eram maiores do que aos médicos de primeiros cuidados (primary care physicians), mas 72% das pessoas usando ambos recursos para tratar alguma patologia, não informavam ao seu médico. Outra indicação desse mercado crescente veio da indústria: em 1994, já havia 8.000 lojas específicas para alimentação saudável e mais de 1,5 bilhão de dólares foi gasto apenas em fitoterapia. Desde então, várias outras pesquisas e censos vem demonstrando este crescente no mercado americano.  
Em 1995, a National Library of Medicine (NLM) expandiu suas “key words” e “journal listings” para incluir medicina alternativa. Como resultado, a NLM agora contêm mais de 60.000 citações em medicina alternativa e medicina integrativa. Estudos multicêntricos e meta-análises têm aparecido com mais freqüência nesta área. Em setembro de 1997, The Lancet publicou uma meta-análise em homeopatia. Em outubro do mesmo ano, foi publicado no JAMA um estudo multicêntrico a respeito do uso de Ginkgo Biloba em pacientes com Alzheimer.Em uma recente pesquisa entre médicos leitores do JAMA, medicina alternativa foi eleita como o 7º tópico mais importante em uma lista de 73 tópicos por publicação. 
Mas, quem participa desse movimento integrativo? No começo de qualquer movimento sócio-cultural em que se está tentando mudar ou estabelecer conceitos (status quo), um pequeno número de pessoas dará os primeiros passos, podendo arriscar as próprias carreiras. Estes pioneiros são os primeiros a perguntar onde estamos e onde queremos chegar, aqueles que navegam por mares turbulentos tentando quebrar paradigmas. É preciso poder de inovação e coragem. 
Em 8 de novembro de 2007, o Bravewell Collaborative, instituição filantrópica que apóia o nascimento e crescimento da Medicina Integrativa nos Estados Unidos, promoveu o Evento de Premiação aos Pioneiros da Medicina Integrativa, na cidade de New York.  “O trabalho desses pioneiros nos anos 80 e 90 podem ser lembrados como os inaugurais de uma nova era da Medicina” disse o moderador Dr. Mehmet Oz (o do programa da Oprah). São eles: Dr. Larry Dossey, Dr. James Gordon, Dr. Jon Kabat-Zinn, Dr. Dean Ornish,Dra. Rachel Remen e Dr. Andrew Weil. 
O Bravewell Collaborative nasceu em 2001 de uma união de filantropos com alguns desses pioneiros médicos com o objetivo de dar um novo rumo ao sistema de saúde que estava mostrando sinais de fraqueza. Em 2004 formou o Bravewell Clinical Network contando com 8 grandes centros de pesquisa envolvidos com o assunto. Esta rede vem crescendo e, hoje, já são quase 40 grandes e respeitados centros norte-americanos entre os quais podemos destacar as Universidades do Arizona, Duke, Harvard, Johns Hopkins, Mayo Clinic, entre outras, formando o Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine. 
A vida me proporcionou a possibilidade de conhecer grande parte desses centros e ter estudado em dois deles (Duke e Harvard). Gostaria que todos os nossos leitores soubessem da minha percepção sobre esse movimento: Essa é a Medicina do Futuro! Desde meu retorno ao Brasil em 1999 tenho me dedicado muito às práticas complementares e, hoje, represento a Associação Médica Brasileira de Ortomolecular, como presidente. A visão integrativa dentro da prática ortomolecular é fundamental e grande responsável pelo sucesso de nossas terapias. Nossos esforços vão de encontro a tornar essa ciência mais conhecida e acessível à população geral. Prevenir e promover a saúde, além de tratar as doenças na sua origem de uma forma mais natural é primordial para que nosso sucesso aconteça. Meu sonho é realmente enxergar uma maior integração entre os métodos convencionais e práticas complementares no futuro para uma saúde melhor.   
O modelo americano conta com o Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa (NCCAM) com um orçamento anual de mais de US$ 100 milhões para o desenvolvimento e regulamentação dessas terapias. Por quê não unir forças entre as associações médicas complementares e contar com a contribuição da sociedade brasileira para esse objetivo em nosso país? Com tantos excelentes profissionais na área clínica e pesquisa, temos uma grande oportunidade de elevar o Brasil a um status de líder nesse segmento. Ao menos, esse é um dos meu sonhos. Saúde à todos!
  

“Integrative medicine is the practice of medicine that affirms the importance of the relationship between practitioner and patient, focuses on the whole person, is informed by evidence, and makes use of all appropriate therapeutic approaches, healthcare professionals and disciplines to achieve optimal health and healing.”  

             

Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine