Este post NÃO é meu mas sim de Fred Mattos e está originalmente neste link:
http://www.sobreavida.com.br/2011/10/20/o-que-falar-para-alguem-esta-prestes-a-morrer/
Posto-o aqui hoje porque, como disse no meu Facebook:
https://www.facebook.com/icaro.aa/posts/519626218059477
"Impossível não chorar ao ler isto. Todas as
palavras, de ambad as partes não só são úteis pelo seu conteúdo
elucidativo mas também pelo conforto e propósito que trazem. Parabéns
para ambos e que Deus os abençoe muito, aqui ou "no céu" pelo que
produziram. Abraço"
“Olá Fred,
Já que a Dona M. tomou coragem e confessou que nunca amou o marido de 30 anos eu tomei a liberdade de mandar esse e-mail.
Enviei logo cedo após receber meus remédios para que você pudesse ler logo que acordasse. Espero que não se importe.
Estou
há uma semana internado num bom hospital e entre um mal-estar e outro
tenho lido seu blog. Logo que me internei um amigo me disse: acho que
agora é hora de pensar sobre a vida. Sou viciado em tecnologia, peguei
meu iPad (foi a única coisa que pedi que os médicos não me tirassem) e
digitei no Google “sobre a vida”. Surgiu seu blog e confesso que pensei
“mais um blog de merda falando blábláblá”. Não dei confiança, mas depois
de não achar nada muito interessante voltei ali.
Tenho 28 anos, minha barba cultivada com gosto para que eu aparente mais idade está caindo, isso me aborrece.
A
questão que me intriga é que vou morrer e não sei o que fazer diante da
morte. Vou morrer em breve, talvez eu não receba sua resposta. Claro
que não estou pendente disso para morrer (isso está infelizmente fora de
minhas mãos), mas filhadaputamente o padre que veio me visitar e não
gostei do que ouvi. Sei que ele trouxe palavras bondosas, mas tão vazias
de real sentido para mim que aproveitei que eu estava vomitando que nem
um desgraçado para enxotar aquele velho de batina. Minha doença me
consome rapidamente e não acredito em nada para além desta vida, nem
preciso acreditar. Sou ateu (o máximo de fé que tenho é fazer figuinhas,
pois mamãe me ensinou e lembro dela quando faço) e sinceramente não me
culpo por isso.
Tive uma vida cheia de acontecimentos,
aproveitei tudo mesmo, sem exageros ou excentricidades. Minha doença é
um tipo de problema genético, raro e fatal. Os médicos não afirmam nada
(eles sempre estão um pouco emburrados), mas já pesquisei na internet e
realmente acho que vou bater as botas mais rápido do que eu queria.
Fiquei
pensando o que você, como psicólogo, teria a dizer para alguém que tem
algumas horas ou dias de vida ainda pela frente? Se eu não conseguir ler
a resposta espero que ajude alguém nas mesmas condições ou que ajude
qualquer um.
Abraço,
R.”
Caro R.
Acho
que não estou em posição de aconselhar alguém que está em uma condição
única e porque não dizer privilegiada como a sua. Sim, privilegiada.
Estar diante do próprio fim e fazer a pergunta certa não é tão simples.
Já que você digitou no Google SOBRE A VIDA, vou falar algumas coisas que penso sobre a vida. Espero que sirvam.
Na
vida eu finjo que não tenho medo da morte faz muito tempo. Eu tenho
construído um castelo de certezas, de virtudes e de sentido para
simplesmente negar o fato de que vou morrer, assim como você.
Na
vida vi que todas as amizades que tenho são para me deixar menos
sozinho comigo mesmo. Além disso evitar saber que tudo irá acabar de um
momento para o outro. Mas elas dão um colorido diferente para o passar
dos anos. Algumas valem a pena cultivar, outras são passageiras e deixam
uma marca, algumas temos o dever moral de levar para a vida inteira.
Na
vida não tenho certeza de nada e noto que a maior parte das pessoas não
tem. Mas não perdemos a irresistível atração em fingir que sabemos de
tudo. Antes eu ouvia os bons conselhos, agora duvido deles. Sempre me
parecem demasiado polidos ou conservadores. Como aquelas tias velhas que
tem medo de atravessar a rua e recomendam que você não faça o mesmo.
Com
as críticas ainda tenho dificuldades, confesso que quando me dizem que
sou metido a sabichão ainda fico meio doído. Acho que é pelo fato de que
a pessoa ainda não me conheceu de verdade e me julga pelas minhas
defesas. A prepotência que me resta é só um jeito falsamente forte que
encontrei para que eu não seja inundado pelo mar de amor que sinto, mas
me fragiliza.
Pelo visto você é uma pessoa que foi
agraciada pelo bem estar financeiro. Isso é excelente, com o tempo
aprendi que o dinheiro pode ser um grande amigo de boas realizações. Que
ele é a chave mestra que reflete o fruto do meu trabalho e que me abre
portas para conhecer coisas que eu nunca poderia sem ele. O dinheiro não
é meu inimigo e nem meu amigo, apenas um cúmplice daquilo que quero
ser. O meu dinheiro sou eu em forma de notas. O dinheiro de cada um
reflete o que a pessoa é.
Também me parece que você é
muito amado pelas pessoas. Essencialmente cercado de pessoas boas que te
recomendam no momento mais difícil que pense sobre a vida. Isso parece
que é a grande fórmula para viver e morrer feliz. Nos cercamos de muitas
pessoas que nos fazem mal, nos colocam para baixo e subestimam nossa
capacidade. Elas querem nos ajudar de um jeito que reforça nossa
infantilidade e passividade na vida. Com o tempo procurei selecionar as
pessoas do meu convívio. Conheci amigos maravilhosos, terminei
relacionamentos que me faziam mal e cultivei bons hábitos como me
encontrar sempre que possível com as pessoas que eu amo. Meus livros que
eu tanto adorava ler com exclusividade absoluta agora estão um pouco de
lado. Ainda os amo, mas livros sem pessoas são apenas folhas sem
sentido. O verdadeiro livro que sempre quis escrever já está sendo
escrito no longo dos meus dias. Acho que o seu livro não-publicado deve
ter excelentes páginas e narrativas memoráveis. Deixe que isso te
alegre, inclusive agora.
Com o tempo eu percebi que a
cereja do bolo da minha vida não foi composta de grandes eventos ou
celebrações. Mas foi no tecido invisível dos minutos discretos que
ninguém reparava. Eu sempre soube que aqueles pequenos gestos de
gentileza é que realmente fazem a diferença. Acordar um pouco mais cedo
para dar a mão para uma pessoa. Levantar da cama antes e pegar o copo
d’água. Consolar uma lágrima que não foi anunciada. Pequenas coisas
pelas quais você não vai ganhar nenhum prêmio ou recompensa e ainda
assim devem ser feitas.
Meu caro R. tenho medo, muito medo
de tudo. Medo de falhar, fracassar, decepcionar, fraquejar, deprimir
até parar com tudo e ficar maluco, as vezes enfrento dias difíceis (na
minha cabeça) que penso que não vou aguentar. Mas administro esse medo
da seguinte maneira, sei que são apenas medos, nada além disso. Um jeito
meio menino de fantasiar as coisas maiores do que realmente são só para
que depois eu brinque de super-homem. Afinal quanto maior meu
obstáculo, mais eu acho que fui invencível na superação.
Hoje
tenho rido muito mais de mim, sou um desastrado. Não sei cortar uma
melancia sem sujar toda a pia e ela ficar parecida com um leque torto e
feio. Me perco no transito, mesmo com GPS. Falo coisas fora de hora.
Confesso meu amor antes do tempo. Tolero coisas intoleráveis por mais
tempo que devia. Sou um bobo incorrigível. Mas, afinal, essa é a versão
improvisada de mim mesmo, sei que com o tempo esse eu de hoje será uma
lembrança pálida no eu de amanhã. Então rir de mim me ajudou a não me
magoar tanto ou me levar tão à sério), afinal todos somos rascunhos da
vida. Perdidos como ratos pelados.
Lidar com pessoas
sempre foi um desafio para mim. Sou sensível ao extremo, um sorriso me
levanta e um olhar de desaprovação me derruba. Comecei a entender, a
duras penas que não posso ter controle do que os outros sentem por mim.
Se você me odeia problema seu, se me ama também. Pode parecer uma visão
radical ou uma fala grosseira. Mas se pudesse me ouvir agora dizendo
isso seria com uma voz doce e com sorriso nos olhos. O ódio que sente
por mim é responsabilidade sua, o amor que sente também. O máximo que
posso fazer é dançar em volta do seu coração até que seu ódio se acalme e
me veja humano (com o que tenho de bom incluído) e seu amor se
consolide e me veja humano (com o que tenho de pior incluído).
Acho
que o mais difícil de morrer deve ser imaginar que não veremos mais
aqueles que amamos. Quando trabalhei com pessoas com câncer (doença nem
sempre rápida e fatal) aprendi que a melhor despedida acontece com as
relações que foram mais completas e sem falsidades. Se tivemos uma
relação truncada, conflituosa e cheia de pendências o luto é mais
difícil. Nesse momento tente diminuir as suas pendências e diga o que
vem no fundo do seu coração para os outros. Não hesite, você não tem
mais nada a perder. Literalmente.
Posso dizer que o amor e
o trabalho sempre me guiaram. Mas sei que o amor é um enigma. Hoje me
parece muito mais um grande campo em que muitos eventos acontecem por
ali. Toda a vez que tentei cercar demais a pessoa amada ela se foi,
deixar ela pra lá em demasia também não funcionou. A melhor garantia que
posso oferecer hoje é que onde eu estiver estarei ali.
Já
fique muito preso ao passado e tudo o que não funcionou ali. Também já
fiquei afoito para que o futuro chegasse logo e ele nunca chegou quando
eu queria. Então decidi colocar o rabo no meio das pernas e viver aquilo
que eu consigo hoje. As vezes minha cabeça me engana e tenta me
sequestrar para frente ou para trás. Então eu digo para minha mente “ei,
dá uma olhadinha nesse momento entediante, podemos fazer algo com isso,
que tal?” e numa fração de segundos a minha mente faceira corre para
brincar comigo no presente de novo.
Sou tão jovem quanto
você, então não encare como presunção tudo o que eu disse. Posso
garantir que existem vidas muito mais interessantes que a minha para
você tomar por exemplo. Minhas grandes vivências aconteceram mais no
fundo do meu coração do que na vida concreta. No entanto, foi a vida que
me coube viver e que me satisfez até agora. A sua vida é a melhor que
você pode viver, olhe com compaixão por ela, nada acrescente nela e
muito menos mutile. Tudo ali é do tamanho que devia ter. Até sua barba
que se despediu de você.
Quando olhamos uma vela temos a
ilusão de que ela irá apagar quando a cera chegar ao fim. As vezes acaba
antes, outras a luz continua depois. No seu caso, sua vela está te
surpreendendo, em alguns minutos. A minha pode me surpreender, assim com
todas as pessoas que amamos. Estamos no mesmo barco.
Minha
curiosidade (mal que não quero tirar de mim) vai me dizer para que dê
um retorno caso tenha conseguido ler. Sei que os leitores do blog vão
pedir o mesmo. Então se puder, mande um sinal de fumaça. Sei que esse
texto vai ajudar mais quem ficará vivo (ou finge que está vivo como eu)
por um pouco mais de tempo que você. Mas se te ajudar em algo, já fico
mais que satisfeito.
Ah, se eu pudesse falar uma última coisa seria
morra o mais vivo que puder…
Um abraço meu caro, longa vida enquanto ela existir!
_______
Hoje recebo esse recado:
Meu
irmão pediu que eu enviasse esse e-mail para você assim que falecesse.
Ele me mostrou o texto do seu blog emocionado e falou coisas muito
bonitas sobre o amor que sentia por todos nós e se desculpava se nem
sempre estava tão presente quanto gostaria. Acrescento que ele partiu
essa madrugada de sexta-feira tranquilamente e sem dor, abraçado com
papai e seu iPad (inseparável, aposto que vai procurar o Steve Jobs).
Sentiremos muito a falta daquele menino que sempre tinha
uma palavra
carinhosa e um sorriso pronto nos lábios.
"
Querido Fred
Fiquei
comovido com a honestidade em revelar aspectos da sua vida de um jeito
tão afetuoso, gentil e claro. Eu também não sei cortar melancia direito.
Achei de extremo carinho você não tentar me convencer de nada como fez o
padre.
Nas suas palavras vi que a maior expressão do
espiritual é a própria vida e as pessoas à nossa volta: o amor que me
une à minha família e os meus amigos. Pensando assim, o meu quarto
estava absurdamente lotado de coisas espirituais agora à pouco e pedi
que todos me deixassem à sós por minutos para poder escrever essa
mensagem. Prefiro que ela seja entregue à você quando eu morrer. Agora
posso falar sem peso sobre a morte, pois sei que deixarei meu legado com
todos:
minha memória.
Meus amigos trouxeram um violão e me cantaram músicas que eu gosto (uma delas
http://www.youtube.com/watch?v=L3eiOMQVUqs).
Meu pai fez bolo de laranja com suco de cajú de dar lombriga. Minha
irmã recitou um poema de Vinícius de Moraes que me emociona. Minha
namorada só chora e me beija (energia feminina pura) - bem que eu podia
durar mais uns dias ;). Meu primo trouxe um pendrive com imagens do meu
cachorro latindo para a camera. Mamãe já falecida, me veio fortemente na
memória. Não tenho a pretensão de reencontrá-la, pois no meu coração
ela nunca partiu. Estou meio sensível hoje! heheheh
Obrigado
pela rapidez e prontidão em me responder, nem esperava um post para mim
(mentira) e senti o carinho dos seus leitores. Se puder crie uma nota
de falecimento no Facebook e peça a eles que compartilhem seu texto com
todo mundo (quero ser um morto virtual famoso rsrsr). As pessoas à sua
volta tem sorte em tê-lo em suas vidas, pena não ter sido seu paciente
ou amigo. Fucei na internet (sou stalker) e vi que fará 31 anos em
breve, parabéns psicólogo!
Após cremado, quando as cinzas forem atiradas ao mar digam:
aqui nada um homem feliz! :)
Seguirei seu conselho:
quero estar bem vivo quando eu morrer!
Um abraço e longa vida a você também...
Do amigo que parte, R."
Hoje meu amor fica sem palavras e como foi pedido por R. se quiser compartilhe essa nota de falecimento.